Brava Gente

O que aconteceu na Itália em fins do século XIX para que sua gente perdessem a esperança, ao ponto de deixar para trás sua pátria, suas terras e até seus familiares  para tentar sorte melhor em terras tão distante? 

A Itália estava fragmentada pelo longo período de batalhas para expulsar os Austríacos das regiões de Veneto e Lombardia. Lutavam ainda pela  unificação do restante do país.  Como se não bastasse, os trabalhadores do campo enfrentavam a revolução industrial e a concentração fundiária na mão dos poderosos. Os trabalhadores rurais não tinham como plantar seu próprio sustento. Somado a isso o inverno rigoroso e uma epidemia de doenças, entre essas, a malária flagelava o norte da Itália, tornando incerta e penosa a luta pela vida.

Na Região de Veneto 80% dos camponeses e lavradores pobres  e famintos abandonaram suas terras, atraídos pelas promessas feita pelo  governo imperial Brasileiro, que precisava de mão de obra para substituir os escravos. O governo italiano também fazia sua parte, incentivando sua gente a partirem. Era uma solução desesperadora, pois a situação era critica.

         No período de 1884 a 1914, desembarcaram no Brasil, oficialmente 1.260.369 Italianos de diversas regiões, com destaque para a região de Veneto.

         A viagem, além de longa se tornava ainda mais penosa devido à quantidade de pessoas que se comprimiam até mesmo no porão dos navios.

         Em 1891, ano que a família de Luigi Simonato desembarcou no Espírito Santo, o nº de imigrantes Italianos que havia chegava ao Brasil ultrapassava 1.000,000 .

         Em 1895, o governo Italiano proibiu a emigração para o Espírito Santo. A medida foi em conseqüência  das dificuldades que o imigrante era obrigado a suportar: má alimentação, abusos da polícia, justiça incerta, insalubridade do clima, deficiência de serviços médicos e escolares, demora excessiva na medição dos lotes e divisão de terras, dentre outras denuncias. 

                                                              Pesquisa:  Roberto Simonato.  

 

A SAGA DOS ITALIANOS NO BRASIL

por: CLÁUDIO ROSTELLATO

       Eles deixaram a pátria, amigos e até as famílias para buscar a terra próspera e fértil do Brasil. Na pouca bagagem, além do sonho de uma vida digna, da prosperidade, o conhecimento. Com eles, surgiu uma sociedade organizada. Fundaram associações, clubes, sindicatos, indústrias, colônias agrícolas e até cidades. Ensinaram aos brasileiros o valor da cultura, da arte e o trabalho participativo, em comunidade. Nos seus 500 anos, o Brasil deve um pouco de sua história aos imigrantes italianos.

        Assim como os alemães, japoneses, holandeses, coreanos, portugueses e tantos outros imigrantes, os italianos vieram atraídos pelas promessas do governo brasileiro que acenava com vantagens mirabolantes. Terra fértil em abundância, trabalho nas ricas plantações de café, das quais os colonos poderiam tornar-se proprietários em poucos anos. Na Itália da época (recém-unificada), a maior parte das terras pertencia a pessoas de grandes fortunas, quase sempre da antiga nobreza. Os lavradores, (colonos), ocupavam lotes pequenos, não raro mais de um para cada lote. A política do país vivia sob constante tensão e para piorar ainda mais, uma epidemia de doenças, entre essas a malária flagelava o norte da Itália, tornando incerta e penosa a luta pela vida. Era dessa região (Veneto), onde concentrava 80% dos camponeses e lavradores pobres, que vieram para a América do Sul, especialmente o Brasil.

“Capital” da Itália — Em São Paulo vivem hoje aproximadamente 6 milhões de italianos, computando-se os imigrantes e seus descendentes. O Consulado Italiano na Capital Paulista estima que 1/3 da população paulistana e o mesmo índice à nível estadual, seja de italianos e oriundis. No Espírito Santo, mais de 70% da população descende de filhos da Velha Bota. No início do ciclo imigracionista São Paulo vivia uma fase de transformação de pacata vila a uma cidade grande, com a chegada da ferrovia que vinha de Santos, da iniciação industrial e dos imigrantes.

A maioria dos italianos que ficou em São Paulo veio para o trabalho na lavoura. Muitos se diziam agricultores por exigência do Império, mas na verdade não sabiam trabalhar no campo. Com conhecimento em construções muitos artesões encontraram trabalho como pedreiro, carpinteiro, fachadas e aplicação de gesso. Ajudaram a transformar e moldar a arquitetura paulistana da época. De acordo com dados do Consulado Italiano, 90% do patrimônio monumental da cidade foram feitos por artistas italianos, o que acabou refletindo nos costumes, na língua, culinária e cultura brasileira.

No campo, eles trouxeram tecnologia e o conhecimento da participação comunitária, organizada. Criaram um sindicato próprio para defender seus direitos junto aos fazendeiros. Fundaram colônias que mais tarde se tornaram cidades, como Antônio Prado, Bento Gonçalves e Euclides da Cunha, Caxias do Sul — no Rio Grande do Sul e Pedrinhas em São Paulo. Também contribuíram para o desenvolvimento de dezenas de outras cidades. Na região destacam-se Cerquilho, Salto, Itu, Tietê, Conchas, Jumirim e Piracicaba entre dezenas de centros.

         A grande maioria dos italianos chegou entre 1875 e 1920 – cerca de 1,5 milhão de pessoas e a maior parte ficou no Estado de São Paulo.

Os primeiros imigrantes (com saída registrada) pelo governo italiano chegaram ao Brasil em 1871, mas desde o período do descobrimento eles tem forte ligação com o país. Na embarcação de Pedro Álvares Cabral, um dos armadores era italiano e entre 1530 e 1550, os irmãos Adorno foram os pioneiros no cultivo da cana de açúcar no Brasil. A grande maioria no entanto chegou entre 1875 e 1920 registrando aproximadamente 1,5 milhão de pessoas (homens, mulheres e crianças), sendo que a maior parte ficou no Estado de São Paulo.

Professor da língua, pesquisador da imigração italiana, Andréa Ruggeri é também presidente do Centro da Emigração Italiana de Itu, vice-presidente do Comitato degli Italiani all’estero (Comitê dos Italianos no Exterior) regiões de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre e Rondônia e correspondente do Consulado Italiano para a Região de Itu. Para ele, a imigração italiana no Brasil se divide em três etapas: a imigração em massa entre o final do século passado (maior parte no período do Império de Dom Pedro II) e início deste. “A grande maioria era lavrador, que vinha com a missão de substituir os escravos. Atraídos pelas inúmeras promessas feitas pelo Governo Imperial brasileiro e também pelo incentivo do seu próprio governo para que emigrassem, os italianos que viviam uma situação crítica no campo, por causa do rigoroso inverno, falta de terra para cultivo, partiram para o Brasil em busca do sonho de uma nova vida”, diz.

No Espírito Santo mais de 70% de seus habitantes descendem do Velho Mundo”

       O êxodo de italianos nessa época foi também para outros países da América do Sul, como Argentina e Uruguai. Os navios que partiam dos portos de Gênova e Nápoles, paravam no Brasil para descansar. A viagem, além de longa, se tornava ainda mais penosa devido a quantidade de pessoas que se comprimiam até mesmo no porão dos navios. Muitos acabavam desembarcando nos portos do Espírito Santo, Rio de Janeiro ou Paranaguá. Os que vinham com destino certo para o Brasil desciam no Porto de Santos e de lá seguiam em carroças ou trem, para o Interior. Por esse motivo a forte influência italiana no Espírito Santo, onde mais de 70% de seus habitantes descendem do país de Dante Alighieri. Dom Pedro II não queria que os imigrantes desembarcassem no Rio de Janeiro, pois entendia que depreciaria a capital federal a convivência com os chamados “negros de pele branca”. Pesquisas sobre o assunto mostram que a intenção do Imperador na verdade era estimular a imigração principalmente a européia para substituir o negro no trabalho do campo e ao mesmo tempo promover o branqueamento do Brasil, pois a população branca estava inferiorizada numericamente em relação ao negros e mulatos. Outra preocupação era garantir o povoamento dos pontos mais distantes do país, como os Estados do Sul e assegurar a soberania nacional sobre essas terras.

         Em pleno regime republicano um dos primeiros atos do presidente Marechal Deodoro da Fonseca, foi determinar que não teriam acesso aos portos brasileiros como imigrantes, os indígenas da Ásia e da África. Mesmo assim, os imigrantes japoneses quebram essa discriminação em 1908.

      Pesquisas mostram que o Império queria estimular a imigração principalmente a européia para substituir o negro no trabalho do campo e ao mesmo tempo promover o branqueamento do Brasil.

          O italiano tinha o perfil ideal: europeu e branco, latino, católico-romano, o que o tornava plenamente compatível com a sociedade e a cultura que se desejava implantar. Mas aí é que o Imperador se enganou. “O lavrador italiano era em sua maioria analfabeto, não sabia ler e nem escrever, mas tinha uma cultura muito mais avançada que o brasileiro da época. Vinham de um país onde apesar das dificuldades, nos finais de semanas costumavam reunir-se para discutir o trabalho, trocar informações. Tinham acesso a cultura, sabiam se organizar, viver em comunidade. Chegaram ao Brasil, começaram a construir casas com tijolos que eles mesmos fabricavam. Naquela época só existiam casas construídas de taipas (barro)”, revela Ruggeri.

         Foram os italianos os precursores da organização de trabalhadores em comunidade em defesa de uma causa. Fundaram sindicatos de defesas de seus interesses, bandas de músicas, associações, clubes (o Palestra Itália), hoje Palmeiras foi um deles.
Em Itu,  fundaram a Associação Italiana há 106 anos, que nasceu da necessidade de resolverem questões entre os lavradores e os fazendeiros. Reivindicavam naquele tempo coisas que outros segmentos da sociedade brasileira ainda não conquistaram.

         A chegada dos italianos, exercendo diferentes atividades como pizzaiolo, peixeiros, vendedores ambulantes, jornaleiros, floristas, engraxates e até comerciante de ilusões (como chamavam os homens do realejo), mudou radicalmente a elegante e pacata metrópole dos famosos barões do café. Com eles São Paulo ganhou vida, alegria, misturaram línguas, culturas e culinárias. Tornaram-se base da força trabalhadora das fábricas, oficinas e estabelecimentos comerciais. Cresceram economicamente, levantando a até então quase inexistente faixa intermediária da população, criando a chamada classe operária e inserindo na cidade novas idéias que resultariam em movimentos operários para reivindicar seus direitos de trabalhador.

      
  A forte influência italiana na vida brasileira pode ser medida na virada deste século. Em 1900 a cidade de São Paulo tinha aproximadamente 250 mil habitantes, dos quais pelo menos 150 mil eram italianos natos. E se não foram os principais responsáveis pelo desenvolvimento cultural, agrícola e principalmente industrial do Estado e por conseqüência do país, grande mérito disso se deve a eles. 81% da mão de obra existente na época, era italiana. Ruggeri afirma que nesse mesmo período, das 50 indústrias que a capital paulista possuía, 47 pertencia a família Matarazzo, imigrante italiano e grande precursor da era industrial do país. Era ele quem garantia apoio (casa, comida e trabalho) a muitas famílias que vinham da Itália. Francesco Matarazzo começou seu império com uma Fábrica de banhas em Sorocaba. Os porcos para abate ele comprava em Tatuí, Capão Bonito, Itapetininga, Tietê e vinham “tocados” como boiadas pelos campos.

        Dez anos antes, em 1890 evidenciaram o sentido da integração ao fundarem a Cruz Branca Italiana, uma entidade voltada a socorrer os imigrantes e vítimas das febres infecciosas que chegavam na cidade de Santos. A segunda etapa da imigração acontece no período pós guerra, entre 1946 a 1950. Muitos imigrantes conseguiram contatar os parentes na Itália e convencê-los a vir para o Brasil. Aportaram no país mais 50 mil pessoas. Parte deles funda o último núcleo de colonização no Estado de São Paulo – Pedrinhas, agora município.

         “Francesco Matarazzo começou seu império com uma Fábrica de banhas em Sorocaba. Os porcos para abate ele comprava em Tatuí, Capão Bonito, Itapetininga, Tietê e vinham “tocados” como boiadas pelos campos”

         A última etapa do processo de imigração italiana, nos anos 60, trouxe profissionais liberais, pessoas com formação universitária e com eles, começaram a surgir os turistas, atraídos pelas inúmeras belezas que o país tem Estudioso da história da imigração italiana no Brasil, Andréa Ruggeri está há 10 anos no país. Vive em Itu onde além dos compromissos com o Patronato, Comitê e CEI, leciona italiano. Nascido em Lugo di Ravenna, Província da Emilia Romagna, defende a modernização da cultura italiana e maior integração entre os descendentes e a terra de seus antepassados.

         
Graças ao trabalho de seu escritório, nos últimos 7 anos aproximadamente 50 mil pessoas de várias cidades da região e outros Estados, conseguiram obter a cidadania italiana. Para ele o novo italiano não é saudosista. Se interessa pelas festas da Achiropita, de San Genaro, mas seu maior interesse é o lado cultural, tecnológico, educacional, comercial e até político. Ruggeri revela que a maioria das pessoas quer a cidadania para ter o passaporte vermelho, que lhe abre as portas da Europa. No entanto, durante o processo as pessoas descobrem a sua memória, a sua origem e passam a buscar mais e mais conhecimento sobre isso.

         800% de aumento de turistas - Estatística do governo italiano mostra que nos últimos 5 anos o volume de turistas brasileiros que visitaram a Itália aumentou 800%. Ruggeri credita um grande percentual desse crescimento ao número de dupla cidadania. “Sem dúvida que boa parte desse aumento vem dos novos italianos. Um exemplo é a região de Lucca, na Toscana, segunda mais visitada pelos ítalo-brasileiros, pois aqui vivem mais de 300 mil descendentes luchesi. O jovem que obtém a cidadania não quer emigrar, quer viajar, conhecer a terra de seus antepassados e voltar. Ele quer qualidade, música igual ou melhor a que tem no Brasil e assim por diante”, diz.

O imigrante italiano foi e é um elo importante no processo de desenvolvimento do Brasil e por conseqüência tem sua contribuição nesses 500 anos”.

     
 Projeto 500 anos - O Centro de Emigração Italiana está fazendo a divulgação do evento na Itália. Um filme sobre o tema será lançado no início do próximo ano, com direção de Ricardo Barreto e a participação de grandes artistas brasileiros. Será um curta-metragem de 40 minutos, denominado La Società (A Sociedade). Outra novidade é um livro sobre a imigração italiana com fotografias e relatos. “O Brasil tem que recuperar sua memória nesses 500 anos e analisar o que realmente valeu. A imigração com certeza faz parte desse processo”, afirma Andréa.

“Os italianos se destacaram em várias frentes. Contribuíram na condução de um país que hoje respeita e é respeitado em todo o mundo”

         No setor cultural é fortíssima a influência italiana. Entre os muitos que aqui viveram estão nomes como Ruggero Jacobi. Adolfo Celi, o primeiro de destacada atuação na literatura e o segundo na vida teatral. Muitos vieram e partiram, outros ficaram para sempre. Este é o caso de Pietro Maria Bardi, crítico de arte e Lina Bo Bardi, arquiteta. Foi Pietro quem criou o Museu de Arte de São Paulo, projetado por Lina. Outros personagens não menos importantes contribuíram com a arte e cultura brasileira, como Volpi, Brecheret, Gianni Ratto, Alberto d’Aversa e Paulo Rossi, Cândido Portinari, Menotti del Picchia.